NO FUNDO DA BARBEARIA

NO FUNDO DA BARBEARIA

Jayme Antonio Ramos

Corriam os anos 30, o mundo em rápida transformação, inventos e progresso

tecnológico . Naturalmente as relações sofriam alterações , porém o amor, o ó-

dio, a traição, sempre andaram se delimitando , isso é inerente ao ser humano ,

sempre ocorreram e ocorrerão histórias concernentes a estes sentimentos.Júlio Manoel  e Izaura Manoela eram casados há anos, tinham dois filhos adolescen –

tes, que inclusive já trabalhavam.

Mas o casamento de ambos estava sendo minado, Júlio Manoel do trabalho na

ferrovia , ia direto para o bar , onde ficava bebericando e jogando Sueca com

amigos .

Izaura Manoela ficava à sua espera , muitas vezes até às 11 da noite para esquentar a janta e conversar sobre o dia a dia de ambos. Qual ! Júlio já havia petiscado no bar e meio borracho ia direto para a cama e dormia como um an-

jo. Izaura procurava se conformar  com aquela situação , normal para os

padrões de vários casais na época.

Mas Izaura, ávida leitora de romances e folhetins, era uma mulher romântica , para os padrões daqueles anos, era  mais exigente ,aos poucos foi se rebelando com a situação e as discussões começaram a surgir.

Tentava de tudo para ter um minuto de conversa sem encontra-lo bêbado, tentava ser  correspondida no seu desejo ardente e qual nada , Júlio estava cada vez pior e Izaura passou a ter nojo do marido .

A situação se inverteu e ela que parou de procurá-lo, mas não não pensem que se conformou com aquele estado de coisas.

Ricardo Albino era barbeiro e sempre mexia com Izaura, era vizinho e um astuto observador da situação do casal, ela o achava atrevido e nem sequer o cumprimentava. Um dia ela resolveu prestar mais atenção no rapaz, jovem , forte , um tipão como se dizia naqueles anos e aos poucos foi dando conversa e finalmente aconteceu e foi no fundo da barbearia.

Um dia, dois, três, quatro dias ,todos os dias da semana.

Os comentários começaram a se avolumar , Júlio nem desconfiava, dizia aos quatro ventos que jamais sua Izaura iria fazer uma coisa dessas.

Sr. Albano Henrique , um homem astuto , sério, correto, pai do Júlio já o advertira antes da traição acontecer , que se ele continuasse a agir daquela maneira , iria , como se diz  hoje em dia, tomar bola nas costas.

Sr. Albano vendo que o filho não tomava nenhuma atitude , resolveu investigar    as denúncias de amigos e não precisava ser nenhum Sherlock para descobrir que sua nora traía seu filho e onde estavam acontecendo os encontros já habituais, no fundo da barbearia, numa espécie de depósito de mercadorias e no chão.

Sr. Albano ficou à espreita e numa determinada hora , pois os horários variavam conforme surgiam as oportunidades, viu sua nora entrar na barbearia , logo após a porta do estabelecimento foi fechada , sem ser trancada , apenas com um aviso de volto já.

Sr. Albano deu uns minutos , entrou na barbearia sorrateiramente e flagrou os dois pombinhos em ardente paixão , com direito a gemidos empolgados e tudo o mais.

Calmo , firme e seguro de sí, ao contrário de seu frágil e viciado filho, Albano fitou bem Izaura e disparou fulminantemente a sentença , que sua nora sabia era implacável e irredutível:

“És bem ordinária e barata, nem uma cama de uma pensão de quinta categoria

tu mereces, mereces o chão do fundo de  uma espelunca barata e cheia de insetos . Suma e nunca mais apareças em nossa casa  ( a casa onde ela residia era de propriedade do sogro ) !

E assim fez Izaura, renegada que foi pelo barbeiro, renegada pela família , sumiu e nunca mais ninguém teve notícias dela.

Os boatos , os mais desencontrados , de pessoas que juravam a tinham visto aqui ou ali, lá ou acolá foram se esvaindo por consistência ou falta de provas com o decorrer dos tempos, nem mesmo os filhos foram procurados pela mãe , nunca mais , nunca mais…

UM MINUTO COM FREI ALMIR

O tema da visita

 

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. (Lucas 1, 39)

Uma visita. Duas mulheres. Uma mais velha e outra quase uma menina. Isabel, a esposa de Zacarias, e Miriam ou Maria de Nazaré, prometida em casamento a José.

Há muita alegria no coração da jovem. Ela quer partilhar com alguém o que lhe sucedeu e como sua história, de repente, ganhou novas configurações. Um mensageiro lhe avisara que seria mãe.

Ela vai apressadamente, como que pulando, de montanha em montanha. Por vezes correndo mesmo. Isabel precisava comungar com ela.

As duas se encontram e se abraçam. A estéril e a virgem. As duas visitadas pelo Alto. Quando se aproximam, o menino de Isabel salta em seu seio.
Júbilo, alegria. Não são necessárias palavras.

Sentam-se. Olham-se. Conversam o essencial. Maria permanece com a parenta três meses. Tempo para fazer vibrar todas as fibras do coração.

Os que se estimam gostam de se visitar. Olhares encontram olhares. Sentam-se num canto. Lembram os tempos que se foram. Projetam o amanhã.

Quase sempre os que se visitam se sentam à mesa e tomam uma xícara de café com leite e um pedaço de torta ou mesmo uma fatia de pão com margarina. O que importa é o encontro, a visita.

Maria e Isabel, duas mulheres agraciadas.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

Extraído do site Franciscanos