HISTÓRIAS DO PARI – CAP. 59

TRAIÇÃO E MORTE

Título trágico dirão alguns, mas esta história pariense foi trágica mesmo.

No fim do século XIX e até os anos 30 , quando havia um crime numa determinada região

paulistana, como a nossa por exemplo, os jornais davam ênfase e soltavam os moleques jornaleiros pelas ruas gritando a plenos pulmões: Extra ! extra ! crime na rua tal e davam

um breve resumo do crime. O imaginário popular fervilhava e os compositores , muitas vezes anônimos escreviam modinhas, cantando a tragédia. Chegavam até a vender pequenos livretos,

com a letra da canção.

Com o surgimento do rádio, diminuiu muito a divulgação por esse meio de comunicação.

Mas este crime, que me foi contado por minha mãe e que ocorreu quando ela era bem pequena e foi contado a ela pela minha avó materna.

Ambrósio era um homem pacato, quieto , casado com a extrovertida e simpática Nizolda.

Ele só pensava em trabalhar, as jornadas diárias eram longas e além disso ele fazia muitas horas extras, na época chamadas serões.  Ambrósio não gostava das muitas festas que se tinha para ir, Nizolda sempre o representava, quando se divertia a valer, provocando comentários maldosos de outras mulheres, inclusive e principalmente das parentes do seu marido.

Nizolda tinha várias irmãs, todas alegres como ela, menos uma, a Graça, que diziam os fofoqueiros , que não tinha graça nenhuma , era uma insossa. Graça era casada com o palhaço, alegre , brincalhão da família, o Luvanor. Um verdadeiro pé de valsa, exímio dançarino, todas as mulheres queriam dançar com ele, pois dançava e bem , todos os ritmos. Naquela época o tango era o ritmo mais querido, porém poucos dançavam , dada a dificuldade que se apresenta aos bailarinos de bailar o ritmo portenho. Luvanor tambem no tango dava um show, era um frequentador habitual dos muitos bailes que haviam em S. Paulo, mesmo depois de casado e sempre com o consentimento da esposa que dizia:” deixa o Lu ir ao baile, coitado , trabalha demais ele merece uma diversão e eu não gosto, ele vai sòzinho”. Essa frase era falada com extrema lentidão , quase causando sono ao interlocutor.

Aos poucos a amizade de Luvanor foi virando um caso amoroso, depois os cuidados de ambos, foram tendo um certo relaxo e os comentários fervilhavam, sempre a boca pequena. Um dia, os comentários chegaram aos ouvidos de Ambrósio e ele começou a prestar mais atenção a horários e atitudes da esposa e passou a ter quase que uma certeza da  traição que estava sofrendo. A cabeça de Ambrósio virou um turbilhão e ele decidiu tomar uma atitude drástica.

Como ele sabia o caminho que o Luvanor fazia para retornar do trabalho, ele preparou o ataque.

Havia um campo de futebol na rua Miller, perto da Cons. Belizário, no Brás, era o campo do Juta  e para cortar caminho ele passava por lá diariamente. Ambrósio se escondeu atrás de uma moita e desferiu golpes de faca nas costas do seu concunhado, matando-o instantaneamente, ele tentou fugir, porém vizinhos do campo de futebol, ouviram os gritos e conseguiram capturar o assassino e chamaram a polícia que imediatamente o prendeu.

Ambrósio, sereno como sempre, se entregou sem resistência, foi julgado , condenado, preso e ficou na Penitenciária por quase quatro anos. Durante a sua permanência na cadeia, granjeou a simpatia de todos, dado ao seu modo discreto e conseguiu a sua liberdade, pois conseguiu  um advogado astuto que sua mulher contratara , que entre outros argumentos usou o bom comportamento e o argumento muito usual na época de legítima defesa da honra.

No dia de sua soltura Ambrósio foi esperado por vários seus parentes e amigos, porém quem lá estava, cheirosa , sensual e provocante? sim a pivô , a Nizolda, que lhe deu os braços e disse solene e provocantemente:” Meu amor, vamos prá casa , vamos ” e lhe deu uma maliciosa piscadela.

Todos reprovaram o seu gesto, irritados , alguns o chamaram de chifrudo , merece ser traído e outros impropérios . E lá ficou morando com a sua esposa, que agora trabalhava e sustentava a casa , pois Ambrósio fora demitido ao cometer o crime e não conseguiria arranjar emprego com essa pecha.

Nizolda tinha um ótimo emprego e ” uma amizade muito grande com o patrão” e trazia todo o conforto ao lar. Passadas algumas semanas , Ambrósio começou a se entristecer com a situação, desprezado por amigos e parentes, achincalhado, não conseguia emprego, Nizolda não fazia nenhuma questão de tentar esconder o seu alto grau de amizade com o patrão. Uma noite ao voltar do trabalho , viu o Ambrósio enforcado no barracão que havia no fundo da casa , pendurado numa barra de ferro para pendurar objetos e com um bilhete que ele escrevera  ao lado , dizendo que não aguentava mais viver.

Nizolda chamou a polícia , providenciou o sepultamento , porém não conseguiu mais residir no Pari, pois passou a ter a repulsa de vizinhos e parentes e mudou-se para outro bairro, perto do patrão protetor e perto do trabalho e ainda quando mudou do bairro bateu os sapatos e prometeu nunca mais no Pari pisar .

Jayme Antonio Ramos

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