FREI ALMIR RIBEIRO GUIMARÃES

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           PRAÇA PADRE BENTO

Matéria extraída publicação ” Franciscanos ” e que nos foi enviada pela Jornalista Érika Augusto, um texto belo do Frei Almir :

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Praça Padre Bento

Convido a todos, de modo especial, os franciscanos da Província da Imaculada, a contemplarem alguns ângulos da Praça Padre Bento, no bairro paulistano do Pari.

A praça em questão fica na cidade São Paulo, no bairro do Pari, na região do Brás, ilha cercada de comércio por todos os lados. Nós, franciscanos da Imaculada, conhecemos bem o monumental templo ali erguido, semelhante a uma basílica romana, o convento, a paróquia, tudo situado na praça Padre Bento. Sabemos que Santo Antônio do Pari foi uma das mais importantes casas desta Província, foco de evangelização, centro de difusão da Bíblia, espaço de mentalização do apreço para com a Terra Santa onde nasceu o Salvador, espaço pioneiro da pastoral operária.  Quantos frades luminosos deram o melhor que tinham e marcaram gerações e gerações. Para começo de conversa desejo apenas  fazer uma “fotografia” de paisagens que andei  contemplando em certo domingo de janeiro deste ano.

Estava hospedado num quarto do convento com amplas janelas dando para a praça.  Era no primeiro andar. Na praça estava a estátua do Padre Bento, sentado, como que a observar tudo o que ali se passava. De quando em vez, pombos descansavam em sua cabeça… Era um domingo, bem cedo. Talvez 7h30 da manhã.  As lojas estavam fechadas e, em dia de domingo, o movimento era reduzidíssimo. Diante de mim, o Bar  Santo Antônio,  na esquina da praça com a Barão de Ladário. Um homem de bermuda azul e camiseta vermelha cavada, fumando, movimentava-se de um lado para o outro, diante do bar, sentando-se e levantando-se, em cadeiras dispostas na calçada.   Quem era? De onde vinha?  Um porteiro, um morador de algum daqueles minúsculos quartos, sem ninguém, sem família? Estava ali num domingo de manhã.  Havia também um homem de certa idade que me parecia um libanês… sentado, sem fumar, nem tomando café… com o olhar perdido, esperando a vida passar.  Levantava-se, ia até o balcão do bar, conversava com o balconista. Aquele bar, as mesas na calçada, tudo aquilo era um reino que  ele possuía sem falar, apenas com sua presença solenemente majestática.

Quantos prédios novos! Altos, envidraçados, bem feitos e mal feitos. As casas foram desaparecendo. Lojas, centros comerciais, manequins completos ou pela metade, expostos nas vitrines, com vestidos de belo colorido e camisetas  luminosas.  Quase todas as mercadorias fabricadas na China. Bem perto do bar, uma vitrine no segundo andar com manequins dourados e prateados contemplando a praça e olhando o homem da bermuda azul e o libanês solenemente majestático.

E os pombos, às dezenas e centenas, comendo ração que senhoras idosas teimam em lhes dar. Muitos pombos que, com seus voos, pareciam aviões aterrissando.  Muitos deles doentes e transmitindo peste.

Homens, relativamente jovens, vinham de uma rua e de outra. Entravam no bar, tomavam café, compravam pão, partiam… Permaneciam sempre o homem de bermuda azul e da camiseta vermelha e o libanês  com sua postura solene.  Verdade que um ou outro homem sentava-se por ali, sempre com celular, conversava com o homem da bermuda azul, depois iam embora. Todos faziam um monólogo.  Falavam por falar.  Nada tinham a se dizer. As conversas giravam em torno da prisão do Eike Batista e da “lava-jato” e  das iniciativas do  novo prefeito da cidade.

Abandonei meu ponto de observação e fui celebrar a missa das 9h.  Metade da igreja tomada.  Gente simples.  Boa participação. Falei sobre o evangelho das bem-aventuranças. De repente, logo depois da homilia,  houve um corte de eletricidade. A operadora deve ter desligado para reparos na região. Gritei o que pude gritar para que todos pudessem participar comigo da oração eucarística.  Poucas crianças, alguns paulistas, muitos nordestinos e meia dúzia de bolivianos.  O que será da Paróquia do Pari nos próximos anos? Uma ilha cercada de lojas por todos os lados. Como o Evangelho poderá penetrar por ali?

Voltei para meu posto de observação pelas 10h. Uma unidade móvel da polícia havia se instalado no meio da praça. Questão segurança. As pessoas começavam a chegar. Crianças andavam de um lado para o outro. Um chinesinho ou coreano corria atrás de um menino árabe, numa bela confraternização. Mulheres encontravam mulheres. A “pombarada” sobrevoava. Pessoas saíam da igreja, outras iam fazer compras no grande supermercado, moradores de rua se aqueciam, ainda  deitados por terra,   enrolados em cobertores. O homem da bermuda azul continuava fumando seus cigarros, gesticulando, conversando com dois outros…  Conversando? Não sei. Os dois estavam com  os olhos fixos na telinha dos celulares. Não creio que os homens com os celulares estivessem prestando atenção na fala do homem da bermuda azul. Catequistas muçulmanos com seus trajes longos e seus gorros andavam pela praça conversando com haitianos, paulistas e paulistanos sobre as coisas de Alá e do Corão.

O dia passou, a noite chegou.  Depois veio a madrugada. Pelas 2 horas da “matina” um roncar suave ou violento de carros, de imensos ônibus, de vans e  kombis de todos os lugares.  Ninguém consegue dormir. Esses veículos  trazem fregueses para as lojas, as incontáveis lojas. Chegam para  comprar na ferinha da madrugada. Não havia lugar algum para estacionamento de carro pelas 5 horas. Tudo tomado. E começavam a circular os ônibus rumo às estações do metrô do Brás, Belém,  terminal  Princesa Isabel, Liberdade. Uma festa, uma movimentação geral, vida pululando, muita vida. Que espaço, em tudo, ocupam a Igreja e os cristãos?

Chega a manhã. Um gari com máscara, varre, cata papéis sobre o gramado. Faz tudo cuidadosamente, meticulosamente.  Os caminhões de lixo recolhem montes de sacos e caixas de papelão desfeitas. Um carro-pipa é levado à praça e um funcionário da limpeza espalha jatos de água  para lavar tudo… e a praça fica bonita, e a vida  canta, as pessoas conversam, encontram-se.  Mesmo esses trapos ambulantes, homens e mulheres, descarnados, sujos conversam, confabulam. Não sei de onde chegam.  Vivem perto da praça. Poucos, na verdade,  habitam a redondeza  do Pari.

Dentro de nossa casa, um pátio interno cheio de flores bonitas e  dezenas e dezenas de pássaros. Rolinhas, descem e planam buscando ração que os frades lhes oferecem cada manhã. Há um pássaro preto meio  sem educação que não deixa as  rolinhas em paz.  Espanta a todas. Quer tudo para si.

Que será de nossa casa do Pari? Frades desejosos de acertar vivem se questionando. Precisam descobrir caminhos.  Devo dizer que de minha janela no primeiro andar vi um espetáculo mais  vibrante do que certos filmes e  espetáculos teatrais.  Vi a dança da vida e tive vontade de viver.

Quem sabe, quanto vocês tiverem um tempinho, deem uma passada  por ali.  Trata-se da vibrante Praça Padre Bento!

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