FOTOS DA CÍNTIA

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Tourada em Málaga, foto de Cíntia Galbiati Ramos.

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MANOEL CARLOS E O PARI

O grande escritor e diretor de novelas da Rede Globo Manoel Carlos é como já falamos anteriormente um filho do Pari. Ele fala com carinho dessa sua grande virtude numa entrevista que concedeu à Biblioteca Mário de Andrade, que a seguir veremos alguns trechos .

BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE
PROJETO MEMÓRIA ORAL
Na direção da captação de imagem deste registro, Sérgio Teichner
e na condução do depoimento, Daisy Perelmutter.
Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, mais conhecido como Maneco, nasceu em São Paulo, em 1933. Foi criado no bairro do Pari até entrar para o colégio interno na cidade de Bragança Paulista, em 1944. De volta a São Paulo, conheceu a BMA através dos amigos José Oswaldo e Geraldo Araújo Lima. A partir de então passou a frequentar assiduamente a BMA, tornando-se um dos membros do grupo “Adoradores da Estátua” e participando de palestras e cursos.Manoel Carlos iniciou cedo sua carreira como ator e diretor nas extintas TV Tupi e TV Excelsior, tornando-se um dos pioneiros da televisão brasileira. Trabalhou em várias emissoras, dirigindo e produzindo programas como a Família Trapo, exibida na Rede Record no final dos anos 1960, Esta Noite se Improvisa, O Fino da Bossa e a primeira fase doFantástico, entre 1973 e 1976.

Mais tarde, dedicou-se a escrever telenovelas. Seu primeiro trabalho foi Maria, Maria, em 1978, e, desde então, não parou mais. Foi colaborador de Gilberto Braga em Água Viva e, mais recentemente, escreveu História de Amor, Por amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas. Manoel Carlos vive no Rio há mais de trinta anos e seus trabalhos são conhecidos por retratar a sociedade carioca contemporânea.

Manoel Carlos guarda muitas lembranças da Mário de Andrade, entre elas, quando Sérgio Milliet lhe reservou uma cabine para leitura e, junto com os amigos, produziu o “Borreador”, um livro coletivo onde cada um escrevia o que quisesse. A Biblioteca era o grande ponto de encontro: “Era um lugar para onde toda pessoa interessada em literatura, em cultura, se dirigia, ia lá, aparecia lá, cruzava por lá”.

Manoel, nós já conversamos um pouco e você é um excelente contador de
histórias. É difícil não ficar seduzida aqui com o teu universo. Eu vou te pedir para
você ir um pouco para trás para você contar um pouquinho. Você falou da sua
família agora, das tuas irmãs, da tua trajetória. Eu gostaria que você falasse um
pouquinho dos teus pais, do bairro em que você nasceu, dessa tua relação originária
com a cidade de São Paulo, com o teu núcleo familiar.
MC: Perfeito. Nasci aqui. Tenho um grande amor pela cidade. A minha família toda é
de São Paulo. Meus pais nasceram aqui. Meu pai, inclusive, veio… Meu pai é o
primeiro filho da minha avó nascido no Brasil. Ela  veio grávida de Portugal. Minha
mãe é do interior de São Paulo, de Araraquara. Então toda a minha família se
formou aqui, o núcleo familiar mais primitivo. Cresci, nasci no bairro do Pari, numa
vilazinha chamada Vila Maria, numa travessinha da Rua Rodrigues dos Santos.
Depois, de lá, com dois anos, mudei para a Rua Thiers, que é duas travessas para
baixo e, depois, com nove, voltei a morar na Rodrigues dos Santos. De lá eu saí
para ir para o colégio interno, para o internato, em 1944. E voltei para lá em 1948,
quando eu saí desse internato e já saí de lá casado, então, já em 1953.
Então toda a minha vida se resume, essa primeira etapa da minha vida, do
nascimento até casar, que eu casei muito cedo, com dezenove anos. Toda a minha
vida se resume ao bairro do Pari e aquela vizinhança ali: Brás, Canindé, Luz, Alto do
Pari, muito a Igreja Santo Antônio do Pari, a pracinha. Eu fui ali congregado mariano,
fui coroinha, tudo neste bairro. E ali também eu tive a formação das minhas
primeiras amizades, que duraram muito tempo, como o Rude, por exemplo, o
Rodolfo Margherito, que também morava muito perto de nós e que morreu muito
novo, muito cedo.
Então toda a minha vida se resume a poucos lugares. Depois de casado é
que eu mudei à beça, morei em muitos bairros de São Paulo. Meu pai era classe
média, chegou até a classe média alta, porque ele tinha indústria, tinha comércio,
tinha uma indústria de ladrilhos, tinha uma fábrica de móveis também, diversificava
muito. Então a gente gozou, assim, de um certo conforto durante muito tempo.
Todos nos formamos lá. Sou um autodidata, porque eu não fiz curso nenhum.
Eu saí de um grupo escolar ali no Pari no terceiro  ano primário e, portanto, não
terminei o grupo escolar.
MC: Olha, o meu pai insistia. A minha mãe insistia, porque a minha mãe, inclusive,
foi professora. Então insistiam, mas era um pouco incontrolável e depois, eu, de uma
certa maneira, eu fiz o internato, não é? De onze a quinze anos de idade.
DP: E como foi essa experiência de internato? Você tinha uma relação tão boa com
a tua família, com os teus irmãos. Não foi muito sofrido?
MC:  Pois é, mas você vê, eu fui preso ao colégio porque eu era absolutamente
descontrolado e não controlável. Então meu pai se sentiu forçado a me colocar no
colégio interno porque eu era, como se dizia antigamente, “muito levado”. Eu
aprontava muita coisa no bairro em que eu morava, com uns amigos, que não eram
esses amigos, ainda. Era um outro tipo de amigo, amigo do bairro, ali, vizinhos, não
é? Eu fugia, ia de manhã para a rua, voltava à noite. Minha mãe ficava maluca atrás
de mim, ia me buscar, às vezes, às margens do Rio Tamanduateí ou Tietê. Então
era uma vida muito coisa e meu pai não conseguia controlar também. Então me
prenderam no colégio. Eu me lembro que eu fui com o meu pai no Colégio
Arquidiocesano, aqui de São Paulo, aqui na Vila Mariana. Queria me colocar lá.
Visitamos o colégio e ele falou: “Não. Aqui é muito perto de casa. Ele vai fugir.
MC: Em termos de arte, por exemplo, eu gosto muito de música, muito, muito, muito.
E eu aprendi piano porque na minha época todos aprendiam piano. Cyro Del Nero
aprendeu, a mãe dele era professora de piano. E minha irmã Leonor tinha muitos
alunos, era professora de piano, formou-se. A Elza, minha irmã, formou-se em
piano. Eu não me formei em piano. Eu digo que a única escola que eu fiz até o fim
foi a autoescola para tirar carteira de motorista,  assim mesmo tomei bomba na
primeira vez. E meu irmão que mora em Brasília formou-se professor de piano, fez
um curso extensivo e formou-se concertista de piano. Agora, essa formação, que
pode parecer tão surpreendente, era natural. Toda casa de classe média tinha
piano, gente pobre tinha piano. É estranho, porque  os pianos eram todos
importados, não existia fábrica de piano no Brasil. Hoje em dia é muito mais fácil.
Não havia a facilidade de compra do crediário, mas  as pessoas tinham piano, eu
nunca entendi bem por que, mas tinham piano, herdados de avós talvez, não sei. O
nosso era da nossa avó que também lecionava piano. Então, tem uma trajetória. O
teatro amador era fundamental, eu fiz… Uma outra  coisa importante, Daisy, toda
paróquia tinha teatro amador. A igreja era muito importante na formação das
pessoas, não importa que fosse uma formação mais dirigida para a Igreja Católica,
que tivesse esse tipo de limitação, digamos assim,  que abrangia apenas a Igreja
Católica, mas toda congregação mariana tinha um grupo de teatro. Eu fiz teatro
amador em congregação mariana. Fiz teatro amador no Círculo Operário Santo
Antônio do Pari, ligado à Igreja Santo Antônio do Pari, com supervisão dos padres,
que eram franciscanos, são ainda, está lá a igreja. Fazíamos teatro ali, em que ano?
1949.
DP: O que você interpretou? Você lembra?
MC: Eram peças só de homens, porque não podia ter de mulheres. Fiz uma peça
chamada Matei meu Filho ou O Grito da Consciência, tinha sempre dois nomes. Fiz
lá também  A Ré Misteriosa e peças assim do repertório religioso. Eram peças
escritas quase todas no século XIX para elenco masculino e existiam para elenco
feminino, para que os homens não trabalhassem juntos com as mulheres. Então, as
congregações marianas pelo mundo todo, no Brasil todo, tinham essas coisas.
Importante também é que esses padres tinham uma formação boa. Padre sempre 21
teve boa formação. Engraçado, a minha mulher, a Beth, é de família protestante,
mas o pai dela botou os filhos em uma igreja católica de freiras, porque falou: “Para
ensinar não tem melhor que eles, porque eles são mais bem informados”.
É uma longa entrevista e muito interessante  e eu selecionei os trechos nos quais Maneco ,
cita , como já disse com muito amor o nosso querido Pari.